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Opinião


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Araguaia cheio... Benção ou castigo?
29/12/2013 11:32:12
As vezes pensar incomoda... tudo bem, mas continuo pensando...

Interessante os aspectos colaterais trazidos por uma grande cheia do Araguaia, tal como se desenha nesse final/início de ano. O que é uma fonte de esperança para o rio, também é motivo de preocupação para quem ainda tem consciência e bom senso.

Explico. O rio precisa, e com urgência, de uma boa cheia, a exemplo do que ocorreu em 1980 - ocasião em que conheci o povoado de Luiz Alves (em suas beiras goiano-matogrossenses!) -, como fator de recuperação de seus ativos, em termos de biodiversidade... vegetação, peixes, anfíbios, répteis, insetos, quelônios, aves e mamíferos; toda essa riqueza que nos deslumbra os sentidos.

A atividade turística de lazer, somada ao uso da terra e do rio, nem sempre de forma racional e mais das vezes algo confusa, desordenada e pouco inteligente, vem gerando ao longo dos anos um estresse perceptível àqueles que conseguem enxergar além do mero lucro financeiro ou patrimonial, estes, os verdadeiros amantes de uma natureza que merecia algo melhor.

Desse ângulo, a cheia, ao fornecer ambiente propício à renovação e proliferação das espécias vivas e também enriquecendo o substrato que fertiliza as várzeas e terras inundáveis, gera solo fértil, propício à agricultura e, por consequência, a abundância de alimentos. É prenúncio de fartura para quem sabe conviver com o rio.

Os indígenas, de ontem, eram mestres nessa arte... a convivência com o Berohokan, ou o Grande Rio no dialeto Iny (Karajá). Nisso sempre foram superiores ao dito "civilizado". Nós!

Mas há o verso da moeda. Tinha que haver! Uma cheia de grandes proporções, além dos nove metros ou mais, traz riscos consideráveis para quem habita as margens do Araguaia. Gentes e animais ditos domésticos! Sejam animais de estimação ou de produção (aves,suínos, bovinos, equinos, etc...).

Em 1980 houve a necessidade de administrar o drama de inúmeros desabrigados, tudo na base do improviso, com perdas complicadas de reparar, rebanhos inteiros mortos ou alongados - há quem afirme que, quando as águas baixaram, tinha búfalo goiano pastando próximo a Belém! -, um grande transtorno para o qual ninguém havia se preparado.

Aliás, é useiro e vezeiro esse tipo de problema em nosso país. Os mecanismos públicos de defesa e administração quase nunca estão preparados para coisa nenhuma; e deviam! Ninguém se coça para planejar, prevenir, gerar ações acauteladoras que permitam enfrentar com eficiência momentos de crise. Aí o bicho pega, quando eventos dessa ordem ocorrem.

É muito fácil e simples chamar o povo para contribuir, solidarizar-se, trabalhar estoicamente, para fazer o que aqueles que deveriam estar prontos e preparados para agir, raramente fazem ou estão! Ridículo isto! Mas é o que se vê.

Disto, o poder público, notadamente as administrações dos municípios que margeiam o Araguaia, poderiam e talvez devessem estar preparados para uma cheia que pode recuar, pode sim, mas que até aqui está sinalizando para ser grande... de que tamanho? Só Deus sabe! Quer apreciem este texto ou não, uma coisa é certa: na hora da emergência, de pouco adiantam discursos bonitinhos, foguetório, etc...

Promessas e mentiras políticas podem comprar o voto, mas não compra vidas perdidas, sonhos roubados, esperanças humilhadas dos menos favorecidos... Pensem nisso, governantes e legisladores das beiras do Araguaia! Sempre desejamos que o Araguaia cheio seja benção, não castigo.


por: A.Coutinho

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