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O Araguaia e as águas de março.
27/02/2014 11:13:39
Se o rio Araguaia é feito de nem pura e nem cristalina água, porque falar em águas? Parece paradoxal não é mesmo? Mas tem seu sentido sim, podem acreditar nesse visionário que vos fala!

A questão é que, de 1980, quando ocorreu a última grande cheia do Araguaia, para cá, 2014, não se conseguiu mais ver as grandes águas, que costumavam ocorrer a cada 10 ou mais anos e que mantinham o ciclo do rio e as vidas, vegetais, animais e humanas que sempre dependeram desse delicado equilíbrio.

Tudo bem, houve algumas cheias que poder-se-ia dizer notáveis, poucas, mas nenhuma delas comparáveis àquelas que ocorriam com alguma regularidade, fugindo ao que seria considerado de “uma cheia normal” do rio.

Com certeza a causa dessa mudança pode ter inúmeras explicações plausíveis: o pouco cuidado com as nascentes do rio, o descaso em relação ao desmatamento ciliar, a irrefreável ocupação humana, o assoreamento, até mesmo fatores como emissão de poluentes e, em última análise, o tão discutido, mas pouco resolvido, aquecimento global.

Seja como for, o fato a considerar é este: o Araguaia vem secando ano após ano.

Já houve ocasião em que quase poder-se-ia atravessá-lo em alguns locais, sem molhar os joelhos de uma pessoa de média estatura! Pasmem, isto é fato e não apenas figura de retórica! O Javaés, braço direito que forma a ilha do Bananal, de uns vinte ou quinze anos para cá, tem deixado de fluir cada vez mais cedo, na ponta sul da ilha, descaracterizando a própria condição geográfica do Bananal. Ilha sazonal! Existe isto? Pois aqui, é exatamente o que ocorre.

É discutível a possibilidade ou não de reverter essa tendência. Talvez se possível fosse reflorestar áreas degradadas, recapear e proteger efetivamente as nascentes (não apenas do rio, mas também de seus mais significativos afluentes)... controlar ou mesmo restringir a ocupação humana de suas beiras, repensar as atividades consideradas “de turismo”... mas é pouco provável que houvesse vontade política para tal. A fome pelo lucro fácil e rápido cala qualquer argumento que se pudesse colocar em favor da preservação e sustentabilidade do rio.

Como já teria dito alguém, o ser humano só irá entender que não dá para comer dinheiro ou ouro, no dia em que, de Araguaia só restar areia seca e esqueletos dissolvendo-se ao sol desse lindo, bruto e explorado sertão brasileiro.

Até lá, isto aqui será sinônimo de peixes gigantescos, na temporada de pesca... sexo, suor, carnaval e cerveja, na temporada de férias, que graças a Deus se restringe ao mês de julho... e no ócio ou dificuldades das populações ribeirinhas, no período chuvoso que vai (ou ia) de novembro a março.

Engraçado... enquanto as genialidades da economia tupiniquim se esforçam na criação de bolsas, programas e projetos que privilegiam mais a malandragem e a corrupção, do que propriamente a formação de uma mentalidade focada na pesquisa e no estudo, de forma a conduzir a uma evolução sustentável da qualidade de vida da nação, até hoje não se conseguiu observar sequer uma ação efetiva por parte daqueles que podiam, e deviam, gerar algum tipo de suporte, por exemplo, para o aproveitamento do turismo ecológico no Araguaia. É... uma forma de aproveitar economicamente o potencial do único atrativo turístico significativo que temos na região, de forma sustentável e ao longo de todo o ano – e não apenas nos meses favoráveis ou permitidos à pesca! -. Incompreensível isto.

Talvez a raiz do problema esteja em que, para mudar o status quo, é necessário investir, inclusive em esforço humano... é, trabalho mesmo... e dificilmente se encontra elemento humano que aprecie trabalhar com os olhos voltados para o futuro... Não por aqui, onde o lucro imediato e ao menor esforço possível é a grande sacada. Fosse diferente e a Caixa ou o SS não lucrariam o que lucram com suas megassenas e telessenas, que só não são diárias porque não haveria tempo, nem jeito, para estocar tanto dinheiro! É... é bom que descubram rapidamente uma forma de “comer dinheiro”... acho que vamos precisar saber isso e não há muito tempo no horizonte, para chegar lá...

Soluções? Ora, experimentem trabalhar olhando para o futuro de seus filhos e netos, deixem a brincadeira, o futebol, carnaval, festas e outras ilusões para quando formos um país realmente bem equilibrado. Tratem se ser sérios, principalmente na hora em que der aquela vontade irrefreável de bajular políticos, obter “vantagens” ou votar!... Não é absolutamente garantido, mas penso que seja esse o melhor caminho... o resto, bom aí sim, há um Paizão lá em cima olhando por todos nós, que fazemos nossa parte.

Enquanto isso, depois de amanhã será março. E aí Araguaia? Onde estão as águas de março?


por: A.Coutinho

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