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Opinião


Crônicas, matérias, textos...
Chega de tutela!
29/03/2014 12:15:36
Na semana que passou, encerramos nossa ativa atuação em redes sociais, cancelando o perfil que mantínhamos nas duas em que participamos (Twitter e Facebook) por perto de 5 anos. O fato em si tem muito pouca importância e traduz pura e tão somente a vontade unilateral de não participar, ainda que se reconheça que ficar fora das redes, hoje, é estar à margem de um canal que pode ser útil e mesmo valioso em certas circunstâncias ou conveniências.

Então, porquê essa vontade de não-participação? Descendo ao bom e velho português vulgar... "encheu o saco"! É, encheu as medidas mesmo. As mesmas mensagens, os mesmos “posts”, o eterno lugar-comum, com conteúdo as vezes sublime, mas na maior parte tendendo à imbecilidade pura, nua e crua... mero repassar de bobagens... massiva pregação de tendências e modismos... colagem inútil... convenhamos, um dia enche as medidas... e transborda.

As redes podem ser convenientes para fazer marketing, ganhar dinheiro... isto seria meu objetivo? Não!

Elas (as redes), em um sentido amplo, podem preencher o tempo, servir como suporte ao esforço de não sentir solidão, dar uma sensação de utilidade, de "fazer parte". Nisso admito que me atendia um pouco. Mas nunca foi imprescindível. Convivo bem com o "Eu sozinho"... em certa medida, gosto de mim (embora em alguns momentos, não me suporte! rsr...).

Em outra perspectiva, também podemos reconhecer nelas um potente canal que abre ao indivíduo comum a oportunidade de "vender seu peixe", posicionar-se, tornar pública a mensagem que possa ter. Essa talvez a melhor característica das redes... e curiosamente, a menos aproveitada.

Há outros aspectos, mas creio que esses são os mais importantes a considerar...

E é sobre esta última "virtude" das redes que repousa a razão maior, responsável pela minha voluntária e livre decisão de "dar um chega", de por um ponto final na minha convivência com o social-virtual de tantos dias. É, meus acessos sempre foram diurnos... já que a noite sempre tive que foi feita para dormir, repousar... e, em algum raro momento de inspiração maior, "fazer arte"!

Desde o primeiro minuto em que iniciei minha participação, minha atenção esteve voltada para a utilização do canal como divulgação de boas ideias, combate aos absurdos que grassam em nossa sociedade, compartilhamento de experiências, conhecimento e amenidades. Disso vem a primeira dificuldade: identificar pessoas que, aparentemente, tenham os mesmos objetivos, comunguem as mesmas aspirações. Não se trata de "querer consertar o mundo"... "mudar o país"... mas buscar conhecimento e obter das "histórias ouvidas e contadas" uma forma de fazer o ato de viver e conviver mais, digamos, palatável... menos traumático... pelo menos, suportável!

Antigamente poder-se-ia conseguir isto indo a um boteco... sentando em um banco de praça... frequentando uma praia ou clube... Hoje isto se perdeu irremediavelmente. Não há mais como, daí...

Consegui reunir algo em torno de umas 30 pessoas com as quais, de fato, valia e vale a pena "conviver", trocar ideias, aprender com elas... e o digo entre aspas porquanto é essencialmente virtual... foram poucos, quase ninguém, os contatos que resultaram em conhecimento físico, experiência real. Mas houve sim... duas ou três pessoas. A maior parte do quase milhar de seguidores (somando as duas redes principais) eram "zeros esquerdóticos". Não somavam. Estavam ali mais porque buscam recíproca (serem seguidas), ostentar números... seguir o talvez maior legado comportamental que recebemos de lideranças governantes... o viver de estatísticas!

Eu diria que é um número muito expressivo e gratificante. Mas há o outro lado... para se deliciar com essa convivência agradável é preciso suportar uma carga de futilidade, imbecilidade e grosseria (para não dizer pior!) que, com o passar do tempo, vai cansando. Agregue-se a isto o fato de os mecanismos disponibilizados pelos portais gerenciadores dessas redes serem deficientes e recheados de falhas que permitem a mal-intencionados ou não, exercerem toda sua "criatividade" para oferecer conteúdo de baixa ou péssima qualidade, eventos chulos ou de gosto duvidoso, invadirem seu espaço pessoal com colagens que não harmonizam com a filosofia pelo qual nos orientamos... fora o uso comercial e os indefectíveis joguinhos, correntes, pornografia... rsr... a lista é infindável.

Matérias realmente inteligentes e significativas... coisa que desafia nossa inteligência, que agrega, que oferece subsídios oportunos... são aves raras. Tem sim, mas são poucas... Vez por outra, abre-se uma discussão sadia... com ideias bem colocadas, críticas bem elaboradas... concordemos ou não com elas... gente inteligente, culta, educada... aqueles com quem dá gosto trocar ideias. Mas o trivial é bastante vulgar...

E é nesse contexto que ligo a TV no final de um dia de trabalho cansativo... que mexe mais com a mente do que com os músculos... e ouço a notícia de que os políticos desse nosso Congresso haviam aprovado – contrariando a vontade mais expressa dos internautas -, a tal legislação que institucionalizava o chamado "marco civil da Internet"... mais uma regulamentação que bem sabemos o destino e objetivos que tem. Foi a gotinha d'água!

Mexer na única coisa que era realmente livre nessa terra mal descoberta e pior conduzida? Chega. Estou fora disso.

Por boas medidas que contenha ou não, é uma tutela inaceitável, pelo menos para mim, em algo que é por natureza deficiente no controle e administração do que expomos ou expõem à nossa revelia, em nosso espaço dito privado ou particular. Já acho um absurdo total e completo o ato de apreenderem computadores em toda e qualquer ação policialesca visando reprimir o que ninguém reprime nesse país...

Como pretender responsabilizar alguém por algo sobre o qual dificilmente se pode garantir algum controle, como é um computador com acesso a Internet ou aberto a acesso externo, público ou não. Qualquer garoto, com um mínimo de conhecimento em informática e programação, consegue invadir, obter acesso, retirar, alterar ou plantar bits e bytes em qualquer sistema integrado ou conectado a rede pública (Internet). Quem duvidar, por favor, busquem a NASA, o Pentágono ou o Citibank, todos americanos, e os questione sobre quantas vezes já tiveram computadores invadidos, de 1980 para cá! Mas, por favor, façam isso sentados...

Nossa sociedade é o fracasso que entendo que é, exatamente por abusar da tutela, por se submeter a tutela, por talvez não saber viver sem tutela. Se estou errado, me penitencio, mas vou morrer fazendo a apologia da liberdade responsável, como forma ideal de viver. Um ser humano com cabresto, ainda que virtual, não é muito mais que um asno, ou outra espécie qualquer de animal irracional.

O que isso tem a ver com o Araguaia? Acho que não muito... mas, afinal, vivo aqui... no Araguaia!

Dificilmente alguém é totalmente livre, mas também não precisa, necessariamente, ser tão tutelado assim.


por: A.Coutinho

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