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Opinião


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Araguaia em berço esplêndido.
10/06/2014 17:25:47
Amanheceu no Araguaia e alguma coisa nova paira pelo ar...

Ah! Já sei... como em um passe de mágica o rio agora tem alguma chance de sobrevivência. É difícil acreditar, mas seja lá porque cargas d'água, houve uma mudança radical na mentalidade até aqui observada, em relação aos rios, florestas, indígenas... natureza. Pelo menos por aqui.

Não dá para alcançar o que possa ter motivado isto, mas mudou... e mudou para melhor, até que enfim.

A legislação, que era confusa, mal redigida e pior aplicada, agora é simples, clara, objetiva e única. É federal, dinâmica como os fenômenos que visa tutelar e não possui as dubiedades e brechas, tão favoráveis à corrupção. Não há favorecimentos nem preceitos absurdos ou incoerentes.

Os peixes são reconhecidos como recursos que precisam ser administrados com inteligência, preservados em seus períodos de procriação e aceitos como fonte de proteína para as populações ribeirinhas. O pescador, até mesmo o amador, pode pescar para consumo próprio, na beira do rio, mas é intolerável a pesca como "meio de vida"... objetivo de enriquecimento à custa da biodiversidade da bacia hidrográfica.

Acabou aquela bobagem de não se poder comer carne de jacaré ou uma boa tartaruga... valores tradicionais e imemoriais dos povos que por aqui sempre habitaram, costumes que lei nenhuma jamais impediu...

A fiscalização é feita no leito do rio e é rigorosa em relação ao estrito cumprimento da legislação. Com normas claras, dificilmente há margem para arbitrariedades, corrupção e abuso de "autoridade". E mais, Lei justa acaba por ser respeitada e acatada.. gerando pouco trabalho para a repressão.

O investimento em educação ambiental, a partir da idade escolar primária, tenderá a garantir a continuidade dos esforços preservacionistas e uma perspectiva real de futuro para nossos cursos d'água. É gestão inteligente, utilizando os erros do passado como ponte para um futuro saudável.

Não há mais lugar para o loteamento político de empregos e cargos nos organismos orientados para a preservação e sustentabilidade eco-ambiental.

O turismo ganha força com o interesse de investidores e o aproveitamento ótimo dos atrativos representados pela riqueza da flora e fauna do Grande Rio, bem como da cultura ainda preservada em aldeamentos indígenas, garantindo mercado para o artesanato e motivando o resgate das tradições tribais em rituais e festas ricas de significado e vida. Pela primeira vez se vê alguém interessado em turismo ecológico, contemplativo, sustentável em toda a linha...

Até que enfim, descobriram que o Araguaia é muito mais que um rio bom de peixes e que o seu aproveitamento cultural pode ser imensamente superior aos efêmeros retornos de hidrovias ou hidrelétricas impraticáveis em suas limitantes naturais.

Como não se sabe, mas as ações de desmatamento da mata ciliar e nascentes, e o resultante assoreamento do rio, está regredindo. Talvez tenham descoberto que o mundo precisa de alimentos, sim, mas que acima disto, exportar commodities não é uma atividade sustentável no longo prazo, nem constrói um sólido comércio exterior. Melhor industrializar e ganhar em qualidade, mais que nas toneladas de grãos in natura ou minério bruto.

O que será que aconteceu com o país? Teria afinal acordado? Ontem não era bem assim que as coisas aconteciam... ou será que eram e eu não percebia?

Eu ia bem por esses pensamentos, quando alguma coisa me acordou... para ver que o Araguaia continuava correndo manso e pesadão, que o sol brilhava na tarde quente e abafada e que a saborosa peixada que fora meu almoço curiosamente não me trouxe o natural pesadelo...


por: A.Coutinho

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